Loucura, arte, loucura

(Trecho de palestra apresentada na XI Ciranda de Psicanálise no Museu de Arte do Rio – MAR)

Sobre a loucura de produzir arte, maior aventura talvez seja falar sobre essa loucura. Reparem, não se trata de loucura “na” arte ou “da” arte, uma vez que isso talvez colocasse em cheque o que é arte, já que essa loucura pode ser interpretada como uma doença e esta não é nossa intenção. Loucura aqui, contra Guimarães Rosa e a favor de Foucault, é sinal de saúde.
Só podemos falar em loucura de produzir arte porque compreendemos que a arte fala e experimenta coisas que o mundo das multidões (Freud) e da maioria de vã opinião (Epicuro) não compreende. Mas isto não falaremos por nossa própria boca, deixemos Freud e Epicuro falarem por eles mesmos. Antes, no entanto, podemos falar sobre uma loucura que seja nossa? Uma loucura “nossa” de produzir arte? Se pudermos então falar de uma loucura que de fato seja nossa, fica claro que temos algo aqui a confiar: uma posse da loucura. Se o verbo “possuir” confere ao seu sujeito qualquer categoria de liberdade, somos antes voluntários da insanidade; artistas depois.
Por outro lado, diante da arte, diante de uma outra escolha de vida, parece que a arte nos escolhe. Como, desse modo, podemos escolher algo que nos escolhe? Possuímos alguma coisa, ou estamos amplamente despossuídos de nós mesmos? Preferimos pensar, talvez ingenuamente, que fazemos uma barganha entre a ideia de uma existência livre, onde podemos escolher pelo menos qual cor iremos colocar numa tela e uma outra ideia de uma existência regida pelas pulsões, para não perdermos os termos psicanalíticos.
O fato é que seguimos pintando e continuar pintando é tudo o que há. De qualquer modo, o que Freud nos elucida em seu Mal-Estar na Civilização, nos dá uma boa perspectiva do que de fato merece nossa atenção em vida. Encerro com uma frase do livro: “existem homens que não deixam de ser venerados pelos contemporâneos, embora sua grandeza repouse em qualidades e realizações inteiramente alheias aos objetivos e ideais da multidão. Provavelmente se há de supor que apenas uma minoria reconhece esses grandes homens, enquanto a maioria os ignora”.

Eric Gerhard, bacharel em filosofia e artista plástico e administrador do Hub Nit.